Semana passada, depois daquele chove-não-molha cerimonialista, e dos aguados discursos das autoridades ambientais, o povinho de São Genaro do Oeste e visitantes acomodaram-se à sombra das árvores que rodeavam o campo. A partida pôde, então, começar.
Era peleja de confraternização, comemorando o Dia Mundial do Meio Ambiente. De um lado a guerreira equipe da pequena São Genaro do Oeste e, do outro, o aguerrido escrete de Leonel do Brejo.
As crianças do grupo escolar haviam plantado mil mudas de sibipiruna, trezentas e tantas perobas-rosa, dezenas de canafístula, pau d'alho, cedro, ipê-roxo, mamica-de-porca, pente-de-macaco, angico-catinga-de-mulata, peroba-mica, pau-jacaré, urina-de-égua e outras tantas.
De sovaco afogado no leite de rosas, cabelo alinhado a poder de brilhantina, chuteirinhas lustradas e meias xadrez, o juiz empinou seus um metro e trinta para cima dos jogadores. E, com o dedo coçando o nariz do centro avante da casa:
- Futebol é coisa pra homem. Quem desobedece o meu apito, me obedece na pancada.
Daquelas singelas recomendações, os jogadores entenderam só a última palavra. Embarcados nela foi que a pelota rolou e a festa teve início.
Aos dois e vinte do tempo regulamentar, o time visitante meteu um gol de mão dentro dos três paus do time da casa. O juizinho brilhantina validou.
O sol se escondeu e o céu veio abaixo. Dizem que nem o dia do Juízo Final será tão devastador.
De saída, o centro avante de nariz coçado baixou a mão na venta do árbitro, que já perdeu mais cinco centímetros de altura. Longe da lei e da ordem, para arrematar o corretivo, plantou o juiz, de cabeça para baixo, em uma cova especialmente preparada para receber um pau-brasil.
Foi o bastante para a torcida invadir o gramado.
Um enxame de gente partiu para cima dos visitantes e, quem visitava, para cima dos que eram da casa. Era grama, chapéu, bolsa e porrete que subia e descia. Coisa igual nunca vista. O prefeito, dentro do eterno terno de linho branco, com as mãos postas na horizontal do ar, corria de um lado para outro, na lateral do campo, fingindo trabalhar duro pelo congraçamento das torcidas. Até os vereadores, de oposição e situação, pela primeira vez tomaram o mesmo partido.
O equilibrado delegado, Nino Marreta, para honrar o cargo dado pelo governo, partiu para cima dos adversários trazendo, na volta, duas perucas, uma dentadura, três chuteiras, um pente fino da marca Carioca, uma sunga e um pedaço de sobrancelha. A professora Gertrudes, entortou a sombrinha no goleiro e, de quebra, deixou um vergão de cinco dedos na cara do marido, que batia sem dó no treinador da equipe de Limoeiro. Sem querer. O mecânico Zecão Fenemê aproveitou e tirou a limpo o calote de dois fregueses e igualmente botou pra dormir um pé de aroeira, recuado cinco passos da linha de fundo.
Poeira baixada, um casamento reatado, três noivados desfeitos, povo removido do recinto, o saldo revelou:
Duas traves quebradas, um tiro na bola, cinco desacordados, Manezinho Gago curado da gagueira, duas cintas-liga e um soutien meia taça 46, quatro patuás, um apito quebrado, uma receita de barreado, dois vidros de catuaba, treze canivetes, vinte e dois óculos de grau, uma oração a Santo Antônio, um pote de brilhantina Condor, uma bombinha contra asma, um pivô e oito medalhinhas de Nossa Senhora.
As árvores foram poupadas. Até uma delas, estranha, cujos galhos em forma de pernas, terminavam, um em forma de chuteirinha lustrada; outro, como pé, enfiado em uma meia xadrez. Furada no dedão.
Um forte abraço e até sexta que vem.
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