MARCIO COUTO
DIÁRIO DE BORDO

Friedrich Nietzche, filósofo alemão, nunca esteve tão em evidência, passados mais de 100 anos de sua morte. É claro e evidente que desse jeito a coisa não melhora. Precisamos pensar algo diferente e melhor... Aquela nossa esperança utópica de uma sociedade mais justa e igualitária continua adiada, colocada eternamente num amanhã infelizmente cada vez mais improvável. Quem souber indicar o caminho a seguir...


É normal esse veranico em pleno inverno? - me pergunto, entre uma idéia e outra... Meio de semana, lua Nova para Crescente, um belo final de tarde e início de noite. O planeta Marte vai cruzar o firmamento de ponta a ponta, próximo da constelação de Escorpião – a mais bela desse período, com sua brilhante estrela Antares e um visual muito parecido com o animal que lhe dá o nome. É normal, nessa época, termos essa apresentação de estrelas. Mas, há previsão de chuva por esses dias, e frio depois.

Uma amiga me pergunta quem é normal ou anormal? Uma mãe "anormal", em tratamento psiquiátrico para loucura, que explica porque jogou sua filha pela janela: não queria mais cuidar dela, alimentar, limpar, banhar, vestir; ou um casal "normal" que jura que não jogou a filha e enteada pela janela, apesar de tantas evidências? Assistimos, também, pela televisão, o desespero de um pai que teve sua família confundida com bandidos, sendo uma criança morta por policiais, após o carro ter sido metralhado.

Bom, mas isso foi no Rio de Janeiro, longe da nossa aldeia. Lá, isso já é "normal". Mas, com o trânsito cada dia mais perigoso, pelo crescente aumento da frota de veículos, principalmente de motocicletas, e a degradação social e familiar dos centros urbanos, com crianças, adolescentes e jovens buscando na rua o que não encontram em casa: proteção e afeto – a verdade é que a violência aumenta a cada dia e nos acostumamos com freqüentes manchetes nos jornais de acidentes com mortes no trânsito e assassinatos geralmente nos bairros da periferia. Ou seja, torna-se "normal", também aqui, em Cascavel, esse índice nunca imaginado de violência.

A ansiedade causada pela pressa que parece estar em todos e em tudo e a ética do individualismo imoral e anti-social – que vai desde a difusão pelos grandes veículos de "comunicação social" (leia mídia eletrônica) da violência pura e simples até o cidadão que sai de casa armado para matar ou não morrer – nos remetem ao cenário do filme "Laranja Mecânica"(1971), do diretor Stanley Kubrick, baseado no romance de Anthony Burgess: num cenário futurista, um líder de uma gangue conquista a platéia transgredindo a ordem social. Se a moral está preocupada com a simetria das nossas relações em relação a outros seres humanos, com a regra básica "não faça aos outros aquilo que não gostaria que lhe fizessem", a ética do nosso tempo é a do eu, do "ter", do poder – muito longe portanto do social, do "ser" e da comunhão. Friedrich Nietzche, filósofo alemão, nunca esteve tão em evidência, passados mais de 100 anos de sua morte.

É claro e evidente que desse jeito a coisa não melhora. Precisamos pensar algo diferente e melhor... Aquela nossa esperança utópica de uma sociedade mais justa e igualitária continua adiada, colocada eternamente num amanhã infelizmente cada vez mais improvável. Os psicanalistas Freud e Lacan, agora os entendo travestidos de filósofos, nos mostram um caminho: devemos ser responsáveis plenamente não apenas por fazer o que deve ser feito, mas também responsáveis pela determinação desse nosso dever.

O melhor investimento para o futuro da humanidade está na educação em período integral de nossas crianças que assim, em pouco mais de 10 anos, proporcionariam a "contaminação" do conjunto pelos princípios da fraternidade em favor do desenvolvimento harmonioso social e econômico, com a necessária preservação do meio ambiente. Mas, de imediato, seria necessário repensar os chamados veículos de comunicação social de massa (como a televisão), direcionando-os verdadeiramente em favor de todos, como se fosse esticado um arco cuja flecha contemplasse uma visão de futuro muito melhor, numa distância em que o arqueiro não pudesse ver o seu rosto num espelho colocado na sua frente, mas, sim, os rostos de seus bisnetos e tataranetos, que poderão ser os rostos de todos, ou nenhum. Ah, esse veranico em pleno inverno me faz sonhar com um mundo melhor, para todos. Quem souber indicar o caminho a seguir...